A morte do vendedor conhecido como “Negão” ou “Veinho”, como era chamado por familiares, após o desabamento de um telhado na Avenida Getúlio Vargas, em Eirunepé-AM, na última segunda-feira (16), deixou a população em luto. Mas a dor da perda agora se mistura com a revolta e o questionamento: ele poderia ter sido salvo?
Segundo informações obtidas pelo Eirunepé Notícias, o rapaz chegou com vida ao Hospital Regional Vinícius Conrado, mas não resistiu. A suspeita de profissionais da área da saúde é de que a falta de suporte adequado no resgate pode ter sido um fator determinante para a piora do seu quadro clínico.
“Todo paciente soterrado ou que sofre queda de estrutura no tórax precisa de oxigênio imediato. O tórax precisa se expandir para respirar, e sem isso o corpo entra em colapso”, explicou o instrumentador cirúrgico Alexsandro de Souza Farias. Segundo ele, o resgate foi feito por um único motorista de ambulância, sem prancha adequada, sem cilindro de oxigênio e sem qualquer suporte avançado.
Além disso, há suspeita de que o vendedor tenha sofrido uma parada respiratória, agravada pela ausência de oxigênio durante o transporte, o que pode ter evoluído para uma parada cardiorrespiratória, quando o coração para de bater por falta de oxigenação cerebral.
Alexsandro reforça que, apesar de apenas Deus saber com certeza se a vítima escaparia, com uma equipe treinada e equipada, as chances de sobrevivência seriam muito maiores. “Não é só o motorista. Tem que haver uma equipe de suporte mínimo, com profissionais qualificados para lidar com trauma. Não só técnico em enfermagem que é o que se tem agora. E essa equipe capacitada, que já existiu em Eirunepé, foi removida por questões políticas”, afirmou.
Ele também critica a falta de ambulâncias apropriadas. Hoje, o município conta apenas com veículos categoria A, considerados básicos e apertados, indicados para transportes simples. Eirunepé não possui ambulâncias das categorias D ou E, como as do SAMU, com capacidade para atendimentos complexos e suporte avançado de vida.
“É triste. Não falo por mim, nem tô pedindo emprego ou falando mal de políticos até, porque passei em três concursos e não dependo disso. Falo porque a população de Eirunepé está abandonada. A cidade precisa de atendimento de verdade, e não de maquiagem”, desabafou Alexsandro, que é instrutor de APH, SBV, de PRIMEIRO SOCORROS E RESGATE AEROMÉDICO.
A tragédia que tirou a vida de um trabalhador simples, querido por muitos, agora escancara um problema estrutural grave no sistema de saúde e socorro da cidade. A pergunta que fica ecoando nos corações da população é uma só: Negão poderia ter sobrevivido? E se caso outro problema desses acontecer o que será feito?
Enquanto as autoridades se silenciam, Eirunepé enterra mais um filho… e clama por respeito à vida.

