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‘Pequeno passo’ de Eirunepé vira notícia nacional

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Meus amigos, quem vive aqui no “sol das seis” e conhece a força das águas do rio Juruá sabe que o tempo na Amazônia não se mede pelo relógio. Ele se conta pelo remo e pelas cheias e vazantes. Por isso, quando abri o site da Folha de S.Paulo na madrugada deste sábado, dia 18, meu olhar estranhou: matéria de Cláudia Collucci traz uma daquelas notícias que, para quem vê de fora, parece um detalhe, mas no Amazonas, é um marco histórico.

O jornal paulistano fez um paralelo curioso: enquanto o mundo celebrava missões espaciais e voltas ao redor da Lua, aqui no nosso sudoeste amazonense, em Eirunepé, o povo comemorava uma conquista tão monumental quanto a chegada do homem ao espaço. Falo da inauguração do primeiro posto de saúde na comunidade do Ubim, dentro da reserva extrativista do rio Gregório.

A Lua é logo ali, mas o Ubim era longe demais
A jornalista Cláudia Collucci, que foi sentir na pele o que é viajar 13 horas de lancha e cruzar milhares de quilômetros de Manaus até o “fim da linha”, descreveu a realidade amazônica. Para muitos brasileiros, o SUS é uma fila no posto da esquina. Para os moradores do Ubim e de outras 17 comunidades vizinhas, a saúde estava a seis dias de distância numa “rabeta”.

Antes desse posto, a diferença entre a vida e a morte era decidida pela sorte de não encontrar uma jararaca ou não cair de um açaizeiro. Histórias de amputações e mortes por falta de soro antiofídico, citadas na reportagem, são cicatrizes que o povo de Eirunepé carrega. Como bem disse o agricultor Dionilson Lima à Folha, a solução era “passar as coisas da mata” e rezar para o osso colar, muitas vezes perdendo a sensibilidade dos dedos para sempre.

Tecnologia de ponta sob o teto de palha
O que a Folha destaca é o projeto SUS na Floresta, uma parceria da FAS (Fundação Amazonas Sustentável) com a prefeitura de Eirunepé, BNDES e outros parceiros. O modelo é moderno: tem a técnica da enfermagem lá no local, mas tem também a Starlink conectando o ribeirinho ao médico especialista por telemedicina.

É a ciência servindo a quem mais preserva. É o que o superintendente da FAS, Virgílio Viana, chamou de justiça climática: dar dignidade a quem menos polui e quem mais sofre com os extremos dos nossos rios, que ora secam a ponto de virarem pedra, ora transbordam com correntezas perigosas.

Um sonho que não pode ser “bandeira de governo”
A matéria da Folha termina com um alerta. O posto está lá, o sonho de seu Eupídio — que perdeu o pai para um AVC após a demora no transporte — foi realizado. Mas, como ressaltou Mickela Costa, da FAS, e a própria prefeita da cidade, Professora Áurea Maria, a saúde na nossa floresta precisa ser política de Estado, e não apenas um projeto passageiro que muda com a cor da bandeira partidária.

Fonte: Folha de S. Paulo.

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