Geral
Conselheiro de Eirunepé-Am, responde às críticas e expõe outro lado da crise: “Já levamos ao Ministério Público e à delegacia, mas ninguém quer saber da realidade”
Após a repercussão da denúncia envolvendo a menina Rafaela, moradora da comunidade Estirão 1, e a avalanche de novas reclamações sobre a atuação do Conselho Tutelar de Eirunepé, o conselheiro Jair procurou o Eirunepé Notícias para apresentar sua versão dos fatos e defender o trabalho que vem sendo feito.
“Às vezes a pessoa detona a gente sem saber de nada. A gente já acompanha esse caso há muito tempo, já levamos para a delegacia, já encaminhamos ao Ministério Público. Tem fotos, tem registro. Mas ninguém quer saber disso. Só querem apontar o dedo”, disse Jair em mensagem encaminhada ao portal, junto de imagens que, mostram o suporte prestado.
O conselheiro destacou que o caso da criança do Estirão 1 é complexo e que a equipe já tentou intervir de diversas formas. “A gente já entregou essa menina para os tios. Eles mesmos devolveram pros pais dois dias depois. A população quer que a gente tire a criança e coloque aonde? Aqui não tem casa de apoio, não tem abrigo. A cidade não oferece estrutura”, desabafa.
A fala de Jair levanta uma questão profunda e incômoda: quando o sistema falha de ponta a ponta, quem assume a culpa? O Conselho Tutelar é alvo direto da indignação popular, e com razão, diante de tantos casos que parecem abandonados. Mas por trás da atuação dos conselheiros, existe também um problema mais silencioso: a ausência de política pública real para a infância e juventude no município.
Eirunepé não tem casa de acolhimento. Não tem equipe multidisciplinar para cuidar de crianças retiradas do lar. Não tem psicólogos suficientes. O que existe é um grupo de conselheiros tentando remediar feridas profundas com os poucos instrumentos que têm e, muitas vezes, sem o respaldo necessário do poder público.
A culpa, então, é só do Conselho Tutelar? Ou é de um Estado que abandona seus próprios filhos? Jair, como conselheiro, também faz parte dessa engrenagem. Mas sua fala revela algo que muitos ignoram: há casos em que o Conselho age, mas as famílias não colaboram, o sistema não responde, e o problema volta para o ponto de partida.
A pergunta que paira no ar, diante de tudo isso, é: até quando vamos permitir que a proteção da infância dependa de improviso? Até quando uma criança será devolvida ao agressor porque “não tem onde colocar”? Até quando os conselheiros terão que escolher entre “fazer o possível” e “serem massacrados” pela comunidade que exige, com razão, respostas?
O caso de Rafaela, assim como tantos outros que chegaram ao Eirunepé Notícias, mostra que a situação é muito mais profunda do que parece. O povo está gritando por justiça. Os conselheiros estão gritando por apoio. E no meio desse grito cruzado, estão as crianças, cada vez mais vulneráveis.
Não basta responsabilizar o Conselho Tutelar. É preciso olhar para cima. Cobrar do município, do Estado, da Justiça. Cobrar a criação de políticas concretas, centros de apoio, abrigos, psicólogos, rede de proteção. O que está em jogo não é só uma disputa de versões. É o futuro de uma geração inteira que está sendo negligenciada.
E enquanto isso não acontecer, não importa quem esteja certo: as crianças vão continuar perdendo.